Lesões, dores crônicas e risco cardiovascular entram no centro do debate sobre performance física e saúde a longo prazo
O universo da performance física nunca esteve tão em evidência. Redes sociais, atletas amadores, fisiculturistas e até pessoas que simplesmente buscam melhorar a aparência física são expostos diariamente a conteúdos sobre testosterona, hormônios e anabolizantes. Mas será que todos entendem a diferença entre reposição hormonal e o uso de anabolizantes para fins de performance?
A primeira distinção importante é que testosterona não é sinônimo de anabolizante, embora faça parte desse grupo. A testosterona é um hormônio naturalmente produzido pelo organismo e fundamental para diversas funções, como manutenção da massa muscular, saúde óssea, libido, energia e cognição. Quando um paciente apresenta deficiência hormonal comprovada por exames e avaliação médica, a reposição pode ser indicada com o objetivo de restaurar níveis fisiológicos.
Já o uso de esteroides anabolizantes para performance envolve doses muito superiores às produzidas naturalmente pelo corpo. Muitas vezes, são utilizadas combinações de diferentes substâncias, conhecidas como “ciclos”, com o objetivo de acelerar o ganho muscular, reduzir gordura corporal e melhorar o desempenho esportivo. É justamente nesse contexto que surgem os maiores riscos.
No sistema musculoesquelético, existe um paradoxo: o músculo ganha força rapidamente, mas tendões, ligamentos e outras estruturas de sustentação não acompanham essa evolução na mesma velocidade. Isso ajuda a explicar por que rupturas do tendão de Aquiles, peitoral, bíceps e ombro são relativamente frequentes entre usuários de anabolizantes. O corpo torna-se mais forte, mas nem sempre mais resistente.
Porém, talvez o maior motivo de preocupação esteja no sistema cardiovascular.
Diversos estudos têm demonstrado que o uso prolongado e em altas doses de anabolizantes está associado ao aumento da pressão arterial, alterações importantes do colesterol, aceleração da aterosclerose, maior risco de arritmias cardíacas, infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Além disso, o coração pode sofrer um processo chamado hipertrofia cardíaca patológica, no qual o músculo cardíaco cresce de maneira desorganizada e perde eficiência ao longo do tempo.
Nos últimos anos, a comunidade médica acompanhou diversos casos de atletas, influenciadores fitness e fisiculturistas que sofreram eventos cardiovasculares graves ainda jovens. Embora nem todos os casos possam ser atribuídos exclusivamente aos anabolizantes, existe uma preocupação crescente sobre o impacto do uso prolongado dessas substâncias na saúde cardiovascular.
Outro aspecto importante é que muitas pessoas avaliam apenas a aparência externa. Um indivíduo pode apresentar excelente definição muscular, baixo percentual de gordura e desempenho físico impressionante, mas estar desenvolvendo silenciosamente hipertensão, alterações cardíacas estruturais, aumento da viscosidade do sangue e disfunção vascular.
No esporte de alto rendimento, a discussão também é relevante. A busca por performance deve caminhar junto com a longevidade esportiva. Ganhar alguns quilos de massa muscular rapidamente pode representar uma vantagem momentânea, mas o preço pode ser pago anos depois, com lesões, cirurgias, problemas cardíacos ou limitações funcionais.
Para pacientes com dor crônica, esse cuidado é ainda maior. O ganho acelerado de força pode aumentar a sobrecarga sobre tendões e articulações já fragilizados. Além disso, fatores frequentemente associados à dor crônica, como obesidade, inflamação sistêmica, distúrbios do sono e sedentarismo prévio, podem potencializar os riscos metabólicos e cardiovasculares.
A medicina moderna caminha cada vez mais para o conceito de performance sustentável. Isso significa buscar melhora física, cognitiva e metabólica sem comprometer a saúde futura. Exercício físico bem orientado, sono de qualidade, nutrição adequada, controle da inflamação, equilíbrio hormonal quando realmente indicado e estratégias de recuperação são pilares muito mais sólidos do que atalhos hormonais.
A pergunta mais importante não é apenas “como performar mais?”, mas sim: como performar melhor hoje sem sacrificar a saúde de amanhã?
Dr. Luiz Severo
Neurocirurgião, especialista em Dor e Neuromodulação.
Professor e pesquisador em Neurociências.





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