Quando falamos em prevenção ginecológica, ainda é muito comum associarmos automaticamente o cuidado à mulher cisgênero e heterossexual. Essa associação, embora historicamente presente nos serviços de saúde, não representa toda a população que necessita de cuidados ginecológicos e de prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e dos cânceres relacionados ao HPV.
Na minha prática profissional, defendo uma perspectiva de cuidado baseada não apenas no gênero da pessoa, mas principalmente na anatomia, na história clínica, nas práticas sexuais e nos fatores de risco. Isso significa compreender que homens trans, pessoas não binárias com útero e/ou vagina e mulheres cis também podem necessitar do rastreamento do câncer do colo do útero. Da mesma forma, mulheres trans e travestis que possuem neovagina precisam ser acolhidas e acompanhadas de maneira adequada, considerando as particularidades desse tecido e da técnica cirúrgica utilizada.
O ponto central é simples: prevenção não deve ser determinada apenas pelo gênero, mas pelo corpo que a pessoa possui e pelas suas necessidades de saúde.
No Brasil, as recomendações atuais para o rastreamento do câncer do colo do útero são direcionadas a mulheres e a qualquer pessoa que tenha colo do útero, entre 25 e 64 anos, que já tenha iniciado atividade sexual. Isso inclui, por exemplo, homens trans e pessoas não binárias que possuem colo uterino.
O câncer do colo do útero está fortemente relacionado à infecção persistente por tipos oncogênicos do papilomavírus humano, o HPV. A importância do rastreamento está justamente em identificar a infecção ou alterações precursoras antes que elas evoluam para uma doença invasiva. Por isso, falar em exame preventivo é falar em uma estratégia de prevenção e detecção precoce, e não simplesmente em “fazer um exame ginecológico”.
E aqui existe uma mudança importante no Brasil. Desde 2025, o Ministério da Saúde (MS) passou a adotar o teste molecular para detecção do DNA-HPV oncogênico como método primário do rastreamento organizado, substituindo progressivamente a citologia como primeira opção nos locais onde o teste já está disponível. Quando o resultado do DNA-HPV é negativo, a recomendação é repetir o teste em cinco anos, conforme as diretrizes brasileiras.
Onde o DNA-HPV ainda não estiver disponível, o exame citopatológico, conhecido popularmente como Papanicolau ou preventivo, continua sendo uma estratégia segura e eficaz. Nessa modalidade, os dois primeiros exames são realizados com intervalo de um ano. Se ambos apresentarem resultados normais, o rastreamento passa a ser realizado a cada três anos.
A coleta convencional é realizada diretamente no colo do útero quando a pessoa possui colo. Por isso, um homem trans que mantém o colo uterino, por exemplo, continua tendo indicação de rastreamento dentro dos critérios estabelecidos, independentemente de sua identidade de gênero.
Já quando a pessoa passou por uma cirurgia que retirou o útero e também o colo uterino, a situação é diferente. Em pessoas submetidas à histerectomia total por razões benignas e sem histórico de lesões precursoras de alto grau ou câncer do colo do útero, o rastreamento cervical de rotina geralmente não é indicado. Quando existe histórico de lesão de alto grau ou câncer, entretanto, pode haver necessidade de acompanhamento específico da vagina, conforme a história clínica e as recomendações especializadas.
Isso mostra por que não podemos simplesmente dizer que “todo mundo precisa fazer Papanicolau”. É preciso saber qual órgão está presente, qual cirurgia foi realizada, qual foi a indicação da cirurgia, se existe histórico de lesões precursoras ou câncer e quais são os demais fatores de risco.
No caso das mulheres trans e travestis que possuem neovagina, também é necessário abandonar a ideia de que o cuidado termina depois da cirurgia de afirmação de gênero. A neovagina é um tecido que precisa ser acompanhado e que pode apresentar alterações relacionadas ao HPV. Entretanto, não existe uma recomendação brasileira equivalente ao rastreamento cervical de rotina para todas as pessoas com neovagina. A indicação de citologia, teste para HPV ou investigação de alterações deve ser individualizada, levando em consideração a técnica utilizada na construção da neovagina, histórico de HPV, presença de lesões, sintomas e outros fatores de risco.
Outro aspecto fundamental é compreender que o HPV não é um vírus restrito ao colo do útero ou à vagina. A infecção pode acometer diferentes regiões anogenitais e também está relacionada a alguns cânceres de vulva, vagina, pênis, ânus e orofaringe.
Por isso, a prevenção precisa acompanhar a realidade da vida sexual das pessoas. O HPV pode ser transmitido durante relações vaginais, anais e também por práticas sexuais envolvendo contato entre boca e genitais. O uso de barreiras, como preservativos internos e externos e barreiras para sexo oral, pode reduzir o risco de transmissão, embora não elimine completamente a possibilidade de infecção, porque o HPV também pode estar presente em áreas de pele que não são cobertas pelo preservativo.
Isso vale para diferentes configurações de relacionamento e orientação sexual. Duas mulheres que mantêm relações sexuais, por exemplo, também podem transmitir HPV entre si. Pessoas que fazem sexo anal também podem adquirir HPV na região anal e desenvolver lesões relacionadas ao vírus. Da mesma forma, determinados tipos de HPV estão associados a cânceres da região orofaríngea. Portanto, não faz sentido falar em “doença de mulher” ou “doença de homem” quando estamos falando de HPV.
Outro instrumento fundamental de prevenção é a vacinação contra o HPV. A vacinação, associada ao rastreamento adequado e à utilização de estratégias de prevenção nas relações sexuais, compõe uma abordagem muito mais ampla do que simplesmente realizar o Papanicolau.
Na prática clínica, percebo que muitas pessoas deixam de procurar atendimento porque acreditam que aquele serviço “não é para elas”. Um homem trans pode evitar uma consulta ginecológica porque o serviço não está preparado para recebê-lo. Uma mulher trans pode acreditar que, depois da cirurgia, não precisa mais de acompanhamento. Uma pessoa não binária pode não se reconhecer em uma campanha que fala exclusivamente com “mulheres”.
É justamente nesse ponto que entra a importância de uma assistência verdadeiramente inclusiva.
Na Clínica GERARVI, por exemplo, trabalhamos com a perspectiva de que o cuidado ginecológico e obstétrico deve ser construído a partir das necessidades da pessoa, respeitando sua identidade, sua anatomia, sua história e suas escolhas. Nosso foco é atender pessoas com útero, vagina ou vulva, compreendendo que existem diferentes formas de vivenciar esses corpos e diferentes necessidades de cuidado.
Quando falamos de prevenção, estamos falando de acesso, informação e acolhimento. Não basta disponibilizar um exame: é preciso criar condições para que as pessoas consigam chegar ao serviço, sejam respeitadas durante o atendimento, compreendam por que aquele exame é necessário e tenham garantia de acompanhamento quando algum resultado estiver alterado.
Prevenir também é isso: olhar para a pessoa antes de olhar para o diagnóstico.
E, principalmente, compreender que uma política de prevenção eficaz precisa alcançar todas as pessoas que podem se beneficiar dela, independentemente de identidade de gênero, orientação sexual ou configuração corporal.
Prevenção não deve ter gênero. Prevenção deve ter acesso, informação, ciência e cuidado.
Prof. Me. Liniker Scolfild Rodrigues da Silva
Especialista em Ginecologia e Obstetrícia na modalidade Residência pelo HAM/UPE;
Sanitarista, especialista em Saúde Coletiva na modalidade Residência pela FCM/UPE;
Atuação e expertise em Saúde da População LGBTQIAPN+ há mais de 6 anos;
Mestre em Hebiatria pela FOP/UPE;
Doutorando em Ciências da Saúde (PPGCS/ICB/FCM-UPE);
Responsável Técnico da Clínica GERARVI – Assistindo Pessoas com Útero, Vagina e/ou Neovagina.
E-mail: gerarvi.saude@gmail.com
Instagram: @gerarvi.saude




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